Antigamente
as famílias eram muito numerosas. Quando nascia o 7º filho
do casal, o mais velho deveria batizá-lo pois segundo a lenda,
se isto não acontecesse, este filho, se fosse homem, nas noite
de lua cheia virava lobisomem e se fosse mulher se transformava em
mulher pata. Ela ia para pedras em lugares escondidos tirava a roupa
e começava a se transformar, contorcia-se e as penas iam surgindo.
Quando a transformação se completava, ela voava para
o alto mar, pousava no mastro dos barcos, e ficava escutando as conversas.
Quando havia escutado tudo o que queria, saía contando tudo
que havia escutado.
Quando os pescadores voltavam, dias depois, ficavam pasmos, pois todos
já sabiam o que haviam conversado em alto mar. Como era possível?
Depois lembravam-se de que uma pata havia pousado no mastro do barco
e concluíam que era a mulher pata que havia feito a fofoca. |
Diziam
os antigos guaraparienses que a "Mãe do Ouro" era
uma menina muito bonita, loira e de olhos azuis. O senhor Manuel contava
que certa vez quando foi cortar lenha em Muquiçaba com mais
três companheiros, marcaram um ponto de referência para
voltarem e um seguiu uma trilha. O Senhor Manoel entrou mata adentro
e deparou-se com uma menina muito bonita que lhe perguntou o caminho
de saída, pois estava perdida. Ele lhe ensinou a trilha de
saída da mata, mas a menina não seguiu a trilha e embrenhou-se
mata adentro. Preocupado, senhor Manuel seguiu a menina, mas ficou
perdido na mata por várias horas e, quando conseguiu encontrar
os companheiros, já era tarde e era perigoso voltar à
mata para procurar a menina. Ao contar o acontecido aos companheiros,
eles disseram: _ Seu Mingufa, era a Mãe do Ouro! Se o senhor
tivesse dado um corte num dos dedos e deixado cair três pingos
de sangue sobre a menina, ela se desmancharia em ouro. |
Conta-se
que um navio holandês naufragou na costa do Espírito
Santo. Alguns tripulantes se salvaram e, presos aos destroços,
foram levados pelas ondas até Meaípe, que era habitada
pelos índios goitacás. Os índios admirados pelos
caracteres físicos dos náufragos, seus olhos azuis e
cabelos loiros, acharam que eles foram ali pelos "gênios
do oceano". Ofereceram-lhes frutos e mel, deram-lhes rede para
repousarem à sombra das árvores tintureiras. Os náufragos
foram assimilando os costumes indígenas e acabaram casando-se
com as filhas dos chefes (isto explica a sobrevivência estrangeira
no tipo de população regional). Um, porém, antes
do casamento, saiu admirando a beleza da paisagem e perdeu-se por
haver esquecido o itinerário percorrido. Caía a noite,
o holandês cheio de temor, procurava resistir ao sono, quando
foi surpreendido pela visão de uma formosa mulher, que emergia
das ondas, envolta em sedosa cabeleira. Vencida a emoção,
o jovem convidou-a a sentar-se na areia ao seu lado, mas em evolução
graciosa, ela se aproximava e se afastava. Ora estendia-lhe os braços,
ora mergulhava para reaparecer mais atraente e bela.
_ Por
que não dormes? _ perguntou-lhe a visão.
_ Perdi o sono. _ Vai recuperá-lo
_ e começou a modular suavíssimo acalanto. Ao romper a
aurora, o jovem despertou embalado ainda pela recordação
do que se passara. Olhou em volta e se deparou com um enxame que
se alava em busca de provisões de pólen. Socou umas
folhas de pau-d'alho, como aprendera com os índios, untou
as mãos e o rosto a fim de que, pelo cheiro as operárias
se afastassem, colheu alguns favos que deliciaram. Após isso,
construiu uma palhoça e resolveu que ali ficaria até
que decifrasse o enigma da visão no-turna. Ansioso, aguardou
que as trevas caíssem e, no céu, pontilhassem as primeiras
estrelas. Longe, eis que ressurge o vulto escultural. - Ela! ...
pensou o flamengo. Ela, sim, volteava graciosa à distância.
A pesquisar instintivamente o motivo do afastamento, o jovem relanceia
um olhar pelo sítio e descobre, na tranqüilidade da
água, duas tochas fixas. Não tremeluziam com os vaga-lumes,
nem ondulavam como a faixa do luar, estirado na água. Misteriosos
pareciam devorá-lo! Ao pio de uma
coruja, logo sucedeu o anúncio do bacurau: _Amanhã,
eu vou! Amanhã, eu vou!... Enlevado, atônito,
sente-se arrastar-se para as franjas da praia. Vai, vai, magnetizado
pela fixidez daqueles olhos, em ignição, enquanto
a mãe d'água, faminta, se enroscava a seu corpo jovem.
Ignorava, porém, que já se lhe abraçara o coração,
pela chama do amor. Não poderia ser devorado, porque se prendera
à melodia da voz e à beleza helênica de uma
sereia! Para vingar-se,
então, da própria derrota, a mãe-d'água
arrasta-o até o lago e invoca a Tupã que o transforme
em pedra.
Desde essa noite,
quando as trevas descem à terra, cintilam as estrelas e as
aves noturnas emitem os seus lamentos, vem a Sereia de Meaípe
cantar a melodia da saudade sobre o monumento do seu amor!
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